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Não às salvaguardas contra os vinhos importados
Bruno Vianna
NÃO ÀS SALVAGUARDAS CONTRA OS VINHOS IMPORTADOS
 
Bruno Vianna
 
Vice-Presidente da ABS-Campinas      b.vianna@terra.com.br

(Artigo publicado no jornal Correio Popular do dia 31/03/2012, pág. 2)
 
O governo brasileiro está estudando a adoção de sobretaxa sobre o vinho importado ou restrição à sua importação, através de cotas. São as chamadas salvaguardas, solicitadas pelas associações dos produtores nacionais, os quais tiveram crescimento de 11,4% nas vendas em 2010, em relação a 2006, diante do aumento total de 30,4% no consumo de vinhos finos no país. Ganharam participação de mercado os importados, que vêm sendo liderados por Chile e Argentina, seguidos, sucessivamente, por Itália, Portugal e França.
Sou grande admirador do vinho nacional e seu incrível desenvolvimento de qualidade, a exemplo dos espumantes, o crescente nível dos vinhos tintos e a descoberta de novos terroirs. Pelo excelente trabalho do IBRAVIN (Instituto Brasileiro do Vinho), muitos jornalistas internacionais têm tomado contato como o vinho brasileiro, surpreendendo-se positivamente. Wines of Brazil, seu braço de promoção internacional, tem levado o vinho brasileiro às principais feiras mundiais, ampliando o leque de países para os quais exportamos, a despeito do desequilíbrio cambial.
 
Infelizmente, por trás da conjuntura menos favorável ao produto brasileiro, oculta-se uma equação econômica difícil, pela qual passa a indústria, que teve uma fraquíssima participação de 14,6% no crescimento do PIB em 2011, a menor em 50 anos. O crescimento do PIB foi de apenas 2,7%, o menor de toda a América do Sul (Argentina 8,8%; Chile 6,0%; Equador 9%, Peru 6,9%; Uruguai 5,5%; Bolívia 4,5%; Colômbia 5,8%; Venezuela 4,2%; Paraguai 4,0%; Guiana 4,8%; Suriname 3,0%; América Latina 4,3%; Mundo 2,8% - Fonte Folha de SP).
 
Segundo analistas econômicos, vários fatores vêm prejudicando a indústria nacional: moeda sobrevalorizada (40% nos últimos 6 anos), carga tributária entre as maiores do mundo (estimada em 35% do PIB), custo de mão de obra elevado (subiu 25% além da inflação, em 6 anos), baixo nível de investimento na economia (19,3% do PIB no Brasil, comparado a 23% na América Latina), energia (subiu 28% além da inflação, em 6 anos) e altíssimo custo do dinheiro (entre os mais altos do mundo). E as prometidas reformas estruturais nunca saem do papel.
 
Muitos industriais já jogaram a toalha, ao não conseguirem competir com os produtos importados (vejam a situação da cidade de Americana, com o parque têxtil sucateado). Segundo matéria do Valor Econômico, a situação geral da indústria brasileira desenha-se de forma bem mais grave que a dos vinhos: “nos últimos seis anos, a produção industrial brasileira cresceu 15%, enquanto o volume de vendas no varejo, 70%”, com o domínio dos produtos estrangeiros.
 
No mercado do vinho, pagamos 4 vezes mais caro que na Europa ou Estados Unidos, ao se somarem a taxa de importação de 27% (exceto Mercosul e Chile, em que é zero), demais impostos e outros componentes massacrantes do “Custo Brasil”. A cada dia abre nova importadora e fecha outra que não conseguiu sobreviver.
 
Para nós que trabalhamos com educação do consumidor sobre a cultura do vinho, a “mais saudável das bebidas”, como dizia Pasteur, será um choque se as “salvaguardas” forem de fato adotadas por três anos, com possibilidade de prorrogação por mais três, e formos condenados ao consumo dos vinhos de baixa gama, a preços ainda mais altos, ou a optar por outra bebida mais acessível. A imposição de cotas, preferência dos demandantes nacionais, causará evidente escassez e aumento de preços.
 
Penso que o governo deveria caminhar em sentido contrário, como muitos países o fazem em relação à indústria ou à agricultura: ao invés de penalizar ainda mais os importados, conceder incentivos à indústria nacional que, com dedicação, paixão e investimentos, tem colocado o Brasil no seleto grupo de países que produzem vinhos de qualidade. Será que são os vinhos italianos, portugueses e franceses que têm feito o consumidor crescer menos no consumo de vinhos brasileiros? As salvaguardas não seriam aplicáveis aos vinhos do Mercosul (Argentina e Uruguai). Ações de incentivo aos produtores nacionais, permitindo uma redução do preço do vinho brasileiro nas prateleiras, são a solução que precisamos para torná-lo mais competitivo e acelerar seu promissor caminho de desenvolvimento.

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